Soletrar o Dia

Poemas do Gado do Senhor | Cattle of the Lord [PT/EN]

Via Sacra

The seed spreads its arms beneath the earth
and you are born to the light, your gaze attentive
to the very branches. Sweetness of green
that warmth ripens: it is pregnant with thirst
that you conceive fruit.
May the mantle of your shadow
be immaculate. So be it
while the trunk thickens
year by year
against the heat
against the cold that divests you
of your clothes
and whips you naked.
You tremble not knowing
that your body is your and our cross
destined before ever
forever and ever.
When the ax strikes the first blow
you are gazing still at the house planted to its rooftop
to which you give shade.
You see the fire burning,
the table set,
the red of wine in every cup.
You, born of a seed without sin,
a stranger to sacrifice,
innocent of all evil,
reverent of sun and rain,
and of the wind’s caprices,
your sap trickles to the ground
and you murmur in the anguish of the flesh:
father, take this cup from me.
Oh, sacred, piteous tree,
blow by blow your body vanishes,
sap spreads across the ground
and you, in agony, cry out: Father,
why hast Thou forsaken me?
But no one answers,
no one resurrects you.
Nor do you know the soul to be a human luxury,
that it isn’t you seated to the right
of the Father-God and that your kingdom is already at an end.
As you see, faith in Him is fervent and immense:
the exact measure of our misery.

VIA SACRA

A semente estende os braços sob a terra
e nasces para a luz, o olhar atento
até aos ramos. Doçura do verde
que o calor matura: é grávida de sede
que concebes fruto.
Imaculado seja o manto
da tua sombra. Que assim seja
enquanto o tronco espessa
ano a ano
contra o calor
contra o frio que te despoja
das vestes
e te fustiga nua.
Tremes na ignorância
de que o teu corpo é a tua e nossa cruz
destinada antes de sempre
para todo o sempre.
Quando o machado desfere o primeiro golpe
olhas ainda a casa plantada até ao tecto
a que deste sombra.
Vês o fogo aceso,
a mesa posta,
o vermelho do vinho em cada copo.
Tu, nascida da semente sem pecado,
alheia ao sacrifício,
inocente de todos os males,
temente ao sol e à chuva,
ao capricho do vento,
a tua seiva goteja para o chão
e no padecimento da carne murmuras:
pai, afasta de mim este cálice.
Árvore santa dolorosa
golpe a golpe se esvai o teu corpo,
a seiva alastra pelo solo
e gritas angustiada: Pai,
porque me abandonaste?
Mas ninguém responde,
ninguém te ressuscita.
Tão pouco sabes que a alma é um luxo humano,
que não és tu sentada à direita
de deus pai e que o teu reino já teve fim.
Como vês, a crença Nele é fervorosa e grande:
a medida exacta da nossa miséria.

No Complaint Book

In the beginning was the Word
but now no one answers.
The husband, the lover, the family and friends,
all gather round the grave.
They begin with prayer or a lay equivalent
and quickly pass to supplications and to bribes.
Cemeteries are bureaucratic offices.
That’s why there are no answers.
There are nights of little sleep for the wrong reasons.
This night the bed shook three times. Your whispers
in my mouth. Your moist skin. Am I your epitaph?
The family and the others continue to come to the counters
without their paperwork filled out.
The dead no longer belong to answers.
Any adjective decays just like the flowers.
Any sentence breaks apart without a subject.
I am a mere tattoo there on your grave.
In the beginning was the end.

SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

Divine Caress

My lamb of god, never wish for slaves.
The moon like a white host
lights up my body sliding over yours.
For god is love and we the faithful.
And since he made us with a touch
I touch you, too, with this caress as you cover me
with happiness throughout the night.
Blessed be he who loves like that.
Free us, Lord, of all the lambs and sheep
and give us this, our daily one another.

CARÍCIA DIVINA

Cordeiro do Senhor nunca queiras escravo.
A lua como uma hóstia branca
ilumina o meu corpo a deslizar no teu.
Porque deus é amor e nós fiéis.
Porque nos fez com uma carícia
assim te acaricio e me cobres
de felicidade pela noite dentro.
Bendito seja quem assim ama.
Livrai-nos Senhor de todos os cordeiros
e dai-nos um ao outro cada dia.

Deixe uma resposta