Soletrar o Dia

Entrevista ao Jornal de Negócios por Lúcia Crespo e Manuel Araújo

A cor nunca é muda
e chega a falar como se gritasse


Rosa Alice Branco tem duas cores no nome e cresceu num mundo a cores também. A poeta e ensaísta nasceu em Aveiro, terra onde o amarelo e o verde e muitos outros tons deflagram por todo o lado, viveu no meio de artistas e de filmes. O pai, Vasco Branco, foi cineasta, ceramista, pintor, farmacêutico. A sua casa tinha uma sala de cinema e era “sede” de oposição ao regime de Salazar. “No meio desta vida colorida, enquanto miúda, eu era quase um feliz fantasma transparente.” Também por isso atirou-se ao mundo da cor – a linguagem do olho – e escreveu “As Cores das Coisas”. “Por que razões a roupa interior foi, durante tanto tempo, branca? Qual a história do azul dos jeans Levis? E em que medida se ligam as cores com a história da Lego? Ou dos chocolates Cadbury?” Rosa Alice Branco é doutorada em Filosofia Contemporânea e tem 12 livros de poesia publicados em Portugal.

A cor é imprescindível à vivência e à sobrevivência

Fazia falta um livro-ensaio sobre as cores das coisas?

Existem livros maravilhosos sobre a cor na arte, mas, para compreender como funciona o mundo da cor na nossa vida quotidiana, temos de percorrer toda a cultura material, não apenas a cultura imaterial da Humanidade. Por exemplo, conseguimos saber imensas coisas sobre a cor através do vestuário: aquilo que vestimos mostra hierarquias de poder. No Ocidente, o bom-tom era, e continua a ser, um dos valores mais importantes. Está aqui também subjacente um valor ideológico, pois até determinada altura defendia-se a sobriedade da cor. Na Idade Média das catedrais, a cor foi proscrita por algumas ordens, sobretudo pelas ordens mendicantes. Basta pensarmos nas vestes dos monges, com cores o menos exuberantes possível. A Idade Média fazia a economia da cor, que era considerada pecaminosa.

As cores continuam a ser mal-amadas?

É cultural. Tudo depende dos continentes e das regiões. E das pessoas. Eu, por exemplo, adoro as cores da América Latina. Fico sempre comovida com os arredores de Santiago do Chile, com aquelas casas pintadas de amarelo-torrado e de amarelo-caril. E depois esses amarelos sobressaturados estão misturados com violetas e vermelhos. São cores que à partida não pensaríamos como adequadas para uma casa. Mas a verdade é que todo este conjunto de cores, envolvido também em espaços muito verdes, é uma coisa que nos comove. Não temos a sensação de poluição visual como poderíamos pensar que aconteceria. Ali percebemos que a dignidade das pessoas que não têm nada passa, muitas vezes, pela cor. Aliás, estive também numa das casas de Pablo Neruda, onde a cor já é muito menos exuberante, mas vê-se que existe o culto da cor. De forma requintada, mas existe.

A Rosa diz que a cor nunca é muda e que chega a falar como se gritasse.

É verdade, até conto a “minha” experiência em Barcelona. Felizmente, vivi o 25 de Abril em Portugal, mas tenho muitos amigos que moram em Barcelona e, também eles, viveram a nossa revolução. Nessa altura, escreveram-me e telefonaram-me a contar como tinha sido o 25 de Abril naquela cidade. Como sabiam que as ruas iriam estar muito policiadas, dirigiram-se para as Ramblas com um cravo vermelho. Eles sabiam que ninguém podia ir preso por ter um cravo ao peito. Caminhavam em silêncio e sem ajuntamentos. Quando viam uma mãe ou um casal com um carrinho de bebé, colocavam, no bebé ou no carrinho,
um cravo, como se dissessem: este é o futuro do nosso país… O cravo vermelho estava carregado de simbolismo, tanto pela sua forma como pela cor. No ano passado, participei no Festival dos Cravos, no Haiti, dedicado à Revolução do 25 de Abril. E nesse festival havia poetas e pessoas do mundo inteiro. Nós deveríamos ter cravos à nossa volta. Não havendo cravos na América, usavam rosas vermelhas. Ali, a rosa vermelha era um cravo vermelho.

O vermelho é a cor do sangue, que é vida e morte. Todas as cores têm um duplo sentido?

As cores começam a ter essa polaridade, pelo menos, a partir da Baixa Idade Média. O vermelho é o sangue que dá vida ao corpo, mas também é o sangue do guerreiro atingido por uma lança. É a cor da vida e da morte – tem esse duplo sentido. Mas, nas sociedades tribais, por exemplo, a morte fazia parte da vida, não era o seu oposto. Então, se vida e morte faziam parte do mesmo ciclo, não existia uma oposição tão forte entre vermelho enquanto símbolo de vida e vermelho como símbolo de morte. Essa dicotomia aparece de forma mais acentuada quando começa a haver uma cisão entre vida e morte e uma dificuldade de aceitação da própria morte. Mas o vermelho é, em si mesmo, uma cor muito contraditória, já defendia Kandinsky: Realmente, o vermelho é a cor que mais facilmente se desestrutura, se rompe, perde identidade.


A dignidade das pessoas que não têm nada passa, muitas vezes, pela cor.

Mas, aparentemente, é muito forte. Afinal, é a cor que mais impacto visual provoca em nós, como diz no livro. Dirige-se aos nossos instintos. “E tantos tabus e interdições ao vermelho só se justificam pelo poder que este detém.”

A maior força contém sempre alguma fragilidade. As pessoas mais fortes, se não tiverem fragilidades, não serão propriamente humanas… O poder do vermelho pode residir no facto de ser apenas vermelho – sem imitações. E isso, apesar de aparentemente ser uma fragilidade, é também uma força. Tudo na cor é consonância e paradoxo. E um desafio tão empolgante como uma montanha-russa, como escrevo no livro. Falo por exemplo no filme “A Mulher de Vermelho” A mulher com um vestido vermelho é uma mulher que diz alguma coisa de si. É logo índice de si própria ou marca de imediato a ocasião. Eu não costumo usar vestidos vermelhos, mas, quando estive no Senegal, comprei um vestido vermelho para ir a um festival – era uma forma de honrar as pessoas daquele país, onde as cores são muito importantes e o vermelho é sinónimo de alegria e distinção. Existe ali um colorido maravilhoso. Parece mesmo que entramos no mundo da cor.

Quase em oposição ao “nosso” Ocidente. Estamos de novo a perder a cor?

Talvez. Por exemplo, o Super-Homem já foi muito mais colorido. Mesmo na arquitetura e no urbanismo, assistimos a uma lenta e progressiva retirada da cor. Nalguns casos, é uma questão de bom-tom: sabemos também que existe muita poluição pela cor. em especial quando está concentrada em espaços demasiado pequenos. Em muitos países da América Latina e de Africa, as cores têm um horizonte mais aberto. Há muito céu e natureza à sua volta. a cor acaba por ficar disseminada e não nos agride. A cor tem de ser planeada, sem dúvida. Mas deve existir. Em cidades muito sombrias graníticas, como é o caso do Porto, onde vivo. tem existido algum planeamento nesse sentido.

“O Porto tem patine cinza, mas não pode resignar-se a ficar transformada numa cidade cinzenta!”, escrevia o arquiteto Gomes Fernandes no Jornal de Notícias em 2005. Ainda é assim?

O Porto mudou muito, até mesmo climaticamente, está a ser feito algum planeamento de cores, sobretudo na Baixa. Mas também assistimos agora a novas construções que estão a usar de novo o cinzento, escuro, esverdeado, o que, numa cidade granítica, fará menos sentido enquanto tendência. Eu nasci em Aveiro, onde a cor deflagra por todo o lado, porque reflete a partir do sal e das salinas e, das primeiras vezes que fui ao Porto, tinha sempre a impressão de que a minha chegada à cidade acontecia a noite… Para mim, era sempre noite no Porto: Mas, neste momento, adoro a luz do Porto: quando há sol, é um deslumbre. A luz amarela no granito dá-lhe um calor maravilhoso.


Assistimos a uma lenta e progressiva
retirada da cor (…). No Ocidente, o bom-tom era, e continua a ser, um dos valores mais importantes.

Portugal é um país de poucas cores?

E difícil dizer, porque Portugal é feito de pessoas muito distintas culturalmente. Eu acho que não poderia viver noutro lugar. Todos sabemos que, de perfeito, Portugal não tem nada. mas é o país que mais me encanta, inclusive do ponto de vista humano. No entanto, além de ser profundamente portuguesa, sinto-me também italiana…, até porque sou muito gestual. Por vezes sinto que os portugueses ainda são algo contidos. Na obra “O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português”, Eduardo Lourenço fala dos portugueses como bisonhos e melancólicos. Esta realidade foi-se alterando, mas tende a surgir de novo durante as crises e nos tempos mais críticos. E somos, sobretudo, mais contidos face a outros países. Itália é mais exuberante, Espanha é mais expressiva.

Diz que há povos com mais e menos cor e que os países de grande frio necessitam de mais nomes para o branco. Neste caso, é sobretudo uma resposta física.

E uma questão de sobrevivência – a cor é imprescindível à vivência e à sobrevivência. Os esquimós precisam de saber a consistência exata das superficies brancas. Precisam de nomes para saber se um trenó pode passar em cima da neve. Precisam também de saber se alguém pode pisar o terreno. Há nomes para todos esses brancos associados à sobrevivência.. Estudar a cor é mesmo fascinante, estamos sempre a aprender. Por exemplo, desde os tempos primitivos e até dada altura, havia uma indistinção entre azul e verde. Importava realmente aquilo que era brilhante. O brilhante era, e continua a ser, símbolo de poder: Um vermelho-brilhante era muito mais parecido com um azul-brilhante do que com o vermelho-mate, sem brilho…

Percetivamente, as cores têm temperaturas diferentes: as mais fogosas aumentam o ritmo cardíaco. Diz, por exemplo, que os cavalos ficam mais agitados numa box alaranjada e que se acalmam numa box azul esverdeada. E que os desportistas com traje vermelho têm mais hipótese de ganhar…

Sim, os amantes de futebol já se zangaram comigo.. Mas, na realidade, este facto é hipotético, pois seria necessário que as equipas estivessem nas mesmas circunstâncias e os jogadores fossem de igual qualidade.

O vermelho, o branco e o preto formam uma trilogia ganhadora para vender produtos.

O filósofo Nicolas Malebranche dizia que a “imaginação é a louca da casa”. “Em termos de perceção, é a cor a louca da casa”, transpõe a Rosa. A cor faz magia?

Nicolas Malebranche foi mais ou menos contemporâneo de Descartes e do racionalismo cartesiano Durante muito tempo, as emoções foram alvo de suspeição, como se fossem uma coisa pecaminosa. As emoções estavam ligadas ao corpo e o corpo era fonte de pecado. Foi até banido da pintura. Foi sendo escorraçado de todo o lado. Com o tempo, tudo isto se foi relativizando, mas só com o casal Damásio é que esta perceção mudou de facto. António e Hanna demonstraram que a área da razão é também a área das emoções; que sem emoções não pode haver capacidade decisória. Para mim, esta foi a grande revolução, pois diz-nos que a emoção está na base de tudo – das cores também. Mas o facto é que as cores são sempre percecionadas conforme a vizinhança, que pode alterá-las, profundamente. A perceção das cores e os fenómenos que ocorrem com as mesmas fazem com que o estudo da cor seja uma tarefa hercúlea.

Por vezes, também associamos palavras, sabores e notas musicais a determinadas cores.

Sim, isso nota-se muito nos sinestetas verdadeiros, naqueles que veem a palavra de uma certa cor, o que acontece mais nas crianças. As crianças pequenas terão um excesso de ligações sinápticas antes das grandes “podas” sinápticas. E ese excesso de ligações, essa espécie de emaranhado de fios, pode dar origem a ligações inusitadas entre cores, letras e sons. Muitas vezes, essas sinestesias acabam por se desfazer ao longo do tempo.

As cores espoletam reações viscerais, mas também nos contam histórias. Falámos no vermelho, cor do luxo e da luxúria. Por outro lado, o branco continua a simbolizar a pureza, normalizada na roupa interior, nas casas de banho e cozinhas. Ou nos vestidos de casamento e na Branca de Neve, como refere no livro. E nos “slogans” dos detergentes “Omo lava mais branco” e “Branco mais Branco não há”, do rival Tide.

Muitas coisas mudaram, mas o branco continua a ser símbolo de pureza. Continuamos a preferir o papel higiénico branco, por causa dessa associação à higiene. O branco é tocado pelo corpo, e queremos que aquilo que é tocado pelo corpo pareça o mais limpo possível. E o branco é a cor que parece mais limpa. Mas resulta também de uma questão cultural. Por exemplo. em Franca sempre se usou mais a cor pastel. Considerava-se que o branco era uma cor muito cara para o papel higiénico – o branco tem tintagem, não é uma coisa por colorir. Ainda hoje, sempre que vou a França, entro nos supermercados. procuro o corredor do papel higiénico e dos guardanapos, e tento perceber se a cor pastel
ainda se mantém dominante. Os meus olhos estão sempre à procura de perceber como é que as cores se materializam nos produtos. Acontece mal eu entro num país ou numa outra cultura. Gosto muito de fazer pesquisas em supermercados, em lojas de vestuário e em merca-dos. Aliás, adoro mercados. Há uma vida extraordinária nos mercados e é uma vida que também se vê através da exuberância das suas cores.

Há uma tendência “colorir” o papel higiénico? Refere o caso da Renova.

Geralmente usamos o tom claro, que nos é mais agradável. Mas chegámos a um momento muito estranho da História, em que pela primeira vezo papel higiénico pode ser uma oferta de luxo. Há caixas lindíssimas. Mas apercebi-me também de que o uso destas cores de papel, nomeadamente do vermelho e preto, é sobretudo para “o inglês ver”, isto é, para impressionaras visitas e seguir as novas tendências do design. Como escrevo no livro, estatuto social compra, a contrassenso, papel higiénico vermelho, insensível ao incómodo da analogia gritante entre o vermelho e a cor do sangue.

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