Soletrar o Dia

Anor Cão | Dog Love [PT/EN]

Não sei porque é que os dias
de canícula se chamam assim

A escrita é um cão a ganir à porta que se abre
para lhe dar mimos, o agasalha à lareira com
um osso farto e tanto o escorraça, mesmo se é
noite e uma carnificina de neve lhe imobiliza
as mandíbulas. O cão escava fundo e tapa, ou deixa
buracos escondidos como luras, outros como túneis
de metro ligando cidades e a porta abre ou fecha
mas o cão nunca desiste das palavras que não
adestram. Se o dono o castiga, sofre mais ainda
a dor animal esgravatando o alvoroço do poema
que tarda, por mais que as orelhas no ar
farejem a música e o focinho irrequieto mostre
as narinas dilatadas de desejo por um verso,
uma constelação de linhas onde todo o universo
se banhe num caudal de palavras honestas.
O cão a caminho das palavras duras de roer.

I don’t know why the dog days
were given that name

Writing is a dog whining at a door that opens
to pamper him, to wrap him warm at the fire
with a rich bone or just as likely chase him away, even if
it’s night and a carnage of snow has frozen his
jaws shut. The dog digs deep and covers it over, or leaves
holes hidden like burrows, others like subway
tunnels linking cities and the door opens or closes
but the dog never gives up on words that won’t domesticate.
If his owner punishes him, he suffers even more his
animal pain, scrabbling in the bustle of the poem
that delays, no matter how much his ears sniff out
the music in the air and his restless snout shows
nostrils dilated with desire for a line,
a constellation of lines where the entire universe
bathes in a flow of honest words.
A dog on the path to words hard to crack.

Num dia frio de Inverno, 
observei a seguinte cena.

A pele renova-se tão pouco
longe dos centros urbanos. O vento
que vem do mar evapora-se nas ruas desertas
onde alguém escreveu o meu nome em sal e escamas,
um pedinte na boca do metro e o cão sentado
como se soubesse que os seus dias são ao desbarato
enquanto o vagabundo esboça umas notas
na garganta cheia de pigarro. Um chapéu com
algumas moedas. Ser dono requer alguma propriedade,
neste caso feita de moedas baratas. É visível
que ambos têm a boca escancarada de outras fomes.
Tudo depende da linha: amarelo, azul, malmequer.
Bem! Nem tudo pode ser azul, ninguém nos prometeu
nomes como “felicidade”. Por isso prepara-te
para esta hora em que o metro regressa vazio
sem uma paragem que abrigue as bocas no amor.

On a cold winter day,
I observed the following
scene

Skin renews itself so little
far from urban centers. The wind
coming from the sea evaporates on the deserted streets
where someone wrote my name in salt and fish scales,
a beggar at the mouth of the subway and his dog seated
as if it knew its days were just a waste
while the bum tries out some notes
in a throat full of phlegm. A hat with
a few coins. To be an owner requires some propriety,
in this case built upon a few cheap coins. It’s obvious
that both have their mouths wide open from other hungers.
It all depends upon the line: yellow, blue, she loves me
not! Not everything can be blue, no one promised us
words like “happiness.” Therefore, prepare yourself
for that hour when the train returns empty
without a stop to shelter mouths in love.

As “inclinações naturais” já não se adequam 
aos requisitos da cultura humana, campo em que 
foram largamente ultrapassadas pelo intelecto.

Onde estás, noite? As luzes acendem-se ao cair
da tarde e já o medo descalabrado pertence a outra
ordem de estar na vida. Falo da tribo a que um dia pertenci
afundada no poço da noite, antes dos cães, dos chacais
e da esperança cega em redor da fogueira. Digo não
à escuridão, outras vezes digo sim
com as paredes da alma a desmoronarem.
As ruínas do corpo nas garras do predador
e os farrapos depois da rapina
são como o fim do amor: ninguém diz onde jaz o abraço
despenhado em pleno voo. Irreconhecível o abraço, sabes?
E a quem importa? Falo de toda a humanidade,
do “quero lá saber” em mupis iluminados.
Por isso já não há silêncio na cidade.
É sempre dia
dia
lua cheia de mupis. E agora os predadores atacam
a qualquer hora. Amar é caro, mas reciclamos
a noite em círculos viciosos. Os predadores olham-me
com a dúvida alojada nos auriculares.
Ah, mas sim! E outras asserções exclamativas.
Sou uma astronauta em vaivém
na terra dos mupis acesos e além do meu cão
só vejo corações apagados.

“Natural inclinations” no longer serve
the demands of human culture, a
field
in which they have been largely
surpassed by the intellect.

Where are you, night? Lights go on as day fades,
and already a debacle of fear belongs to another
order of being in life. I speak of the tribe I belonged to once
sunk in the well of night, before dogs, jackals,
and blind hope around the fire. I say no
to the darkness, but sometimes say yes
with the walls of the soul tumbling down.
The ruins of the body in the claws of the predator
and all those rags after depredation
are like the end of love: no one can say where the embrace lies
plummeting in mid-flight. Unrecognizable, the embrace, isn’t it?
And who cares? I am speaking of all humanity,
of the “ who gives a damn?” in illuminated billboards.
That’s why we no longer have silence in the city.
It is always day
day
a full moon of billboards And now the predators attack
at any hour. To love is expensive, but we recycle
night in a vicious circle. The predators look at me,
with doubt lodged in their earphones.
Ah, but yes! And other exclamatory assertions.
I’m an astronaut coming and going
in a land of illuminated billboards and beyond my dog
all I see are snuffed out hearts.

E dançou à minha volta
numa verdadeira orgia

Escrever alucinações vulneráveis 
do que podia ter sido.
Quando leio everyday dog,
o cão que roda no solo e o faz rolar 
sem eixo, o cão-carpete, relva, 
terra-esbaforida, de repente pára
e o seu olhar inaugura todas as horas
que não sabemos ser. This here and now dog 
quando há sol estende-se nele.
O cão do meu filho é o sol deitado no pátio 
e na varanda. Cheira o dono, faz o ninho 
dentro dos seus braços. Os dois ladram, 
espreguiçam-se, lambem água e sumo
de laranja. O cão do meu filho obriga-me
a este amor porque não se pode amar
fora do outro. Cada um está dentro
do que faz e o que faz o cão do meu filho
é apenas o que é, he’s part of it, hell he is.
Sacode-se, solta o olhar transparente, desfaz
o tempo e a carpete com a cauda a girar e o corpo 
mais rápido do que de repente,
refining his dogness, his very own dog’s dogness
.
Hoje o cão do meu filho totalmente cão,
é cão igual no esmo do tempo inacabado.
Nada a redimir, nem linho branco a acenar dos céus, 
nowhere to go, nothing special anyway
– oh sweet anyway
, oh cão completo
do meu filho, oh nunca e manhã nocturna,
amo tanto o olhar límpido dos dois.

As frases em itálico no poema são da prosa poética «Sweet anyway», de Hugo Branco. 

And he danced around
me in a true orgy

To write down vulnerable hallucinations
of what could have been.
When I read everyday dog,
the dog that rolls on the ground and makes it spin
without an axis, the carpet-dog, the grass,
the breathless uproar-land  suddenly stops
and his gaze inaugurates all the hours
we don’t know how to be.  This here and now dog
when there is sun, he stretches out in it.
My son’s dog is the sun lying on the patio
and the balcony. He smells of his owner, he makes his nest
in his arms. The two of them bark,
stretch and yawn, they lick up water and orange
juice. My son’s dog obliges me
to this love because one cannot love one
outside the other. Each is within
what he does and what my son’s dog does
is just what he is, he’s part of it, goddamn he is.
He shakes himself, offers a transparent gaze, undoes
time and the carpet with his tail whirling and his body
quicker than all of a sudden,
refining his dogness, his very own dog’s dogness.
Today my son’s dog, utterly dog,
still himself in the randomness of unaccomplished time.
Nothing to redeem, not even white linen to wave from the heavens
Nowhere to go, nothing special anyway
–Oh sweet anyway, oh my son’s
utter dog, oh never and nocturnal morning,
how I love that limpid gaze of both.

All words in italics are drawn from a prose-poem “Sweet Anyway” by Hugo Branco 

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