Exercício Espiritual (sobre “A-Z entre imagens e palavras” de Joana Rego) [PT]

exercício espiritual

é o título de um poema de Cesariny mas fica aqui tão bem

 

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Cesariny de Vasconcelos
Manual de prestigiditação

 

 

No meu pequeno universo, as coisas mais fascinantes são a tabela de classificação periódica, os números imaginários, o alfabeto e tudo o resto inumerável como a classificação dos animais na enciclopédia apócrifa chinesa, relatada por Jorge Luis Borges em O Idioma Analítico de John Wilkins: Os animais dividem-se em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et coetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas.

A primeira impressão, quando se desmultiplicaram diante de mim as telas de Joana Rego, para a mostra: A-Z entre imagens e palavras, associou-se a esta enumeração de Borges. A enciclopédia joanina alfabetiza-se de uma forma também surpreendente. É que o r repete a rosa, o v pantoniza-se em vermelhos para veludo, as caixas que servem para guardar coisas (que só as caixas das telas guardam) alfabetizam-se em e de et cetera. Enquanto o g não guarda em palavras, mas em factos pictóricos que domesticam pássaros.

Porém, não se trata do mesmo fenómeno que ocorre no texto de Borges. Joana Rego não lança ao abismo o sentido taxinómico ou, neste caso, alfabético. Nem sequer se coloca numa perspectiva irreverente, ou marginal. E contudo.

Sempre que começo a escrever este texto, e recomeço, as ligações que parecem urdir-se esfumam-se em incongruências. É que os trabalhos de Joana Rego rondam múltiplas perspectivas de abordagem, só para melhor lhes escapar. Ela não dá o r à rosa, e no entanto convoca a rosa para o r. O azul não está no a, mas na água química, na sua fórmula. O p é o seu próprio intervalo.

Então, dou-me conta de que tenho de começar a seguir as anti-pistas, a reunir aquilo a que esta mostra (parecendo pertencer) se esquiva.

Existe, desde logo, um desafio ostensivo, e um outro implícito, no conjunto de A-Z entre imagens e palavras: em primeiro, dar a ver que se sabe que o dito jamais reside no que se vê, um dos temas magistralmente tratados por Michel Foucault. Embora o início da Ekphrasis remonte, pelo menos, à Grécia Antiga, a crítica de Arte, no sentido que ainda lhe atribuímos, nasce nos Salons pelo corpo de um homem – Diderot – que sentia ser culpa sua não conseguir a versatilidade, o engenho, a inteligência e a gestualidade para dar a ver, pela palavra, aquilo que, de facto, é puramente da ordem do visível. Magritte mostra claramente o hiato constituinte entre o objecto e o “objecto pintado” pela humorada crítica que opera, por exemplo, através do título; “isto” não é isto: seja maçã ou cachimbo. Mas nos trabalhos de Joana Rego a função que o título cumpre não é de destabilização, nem de subversão.

O título das obras possui, em geral, o poder de modificar o registo em que serão etiquetadas, já que assimilar a uma imagem o seu título é, também, assimilar texto e imagem. O título, que pertence ao registo da língua, reforça nos trabalhos de Joana Rego a visão da imagem, mas sem a fixar a uma referência. Aqui, a palavra sobre a imagem fortalece-as, cada plano deslizando sobre o outro sem com ele se poder fundir.

O título é sempre fonte de perplexidade. Mas se, durante muito tempo, os títulos estiveram, sistematicamente, agarrados à imagem, assistimos depois a uma polarização do sentido, procedendo-se, às vezes, à tentativa de anular qualquer possibilidade identificadora, como no caso de “sem título”.

O que se propõe, nos trabalhos de Joana Rego, é um diálogo em que o corpo do alfabeto deflagra na figura misteriosa do desejo de dizer, de investir a imagem e, genericamente, as artes do olhar, em múltiplos jogos de espelhamento de sentido.

Na relação do texto com a imagem, qualquer texto, qualquer comentário escrito sobre a imagem (como acontece com as inserções de índole gráfica e tipográfica, e com os textos de Emílio Remelhe e valter hugo mãe) é também imagem, mas pressupõe, em princípio, a resposta a questões sobre a existência de um código na imagem, sobre a natureza desse mesmo código e das suas relações com o código linguístico, e sobre questões respeitantes à ambivalência da leitura, e à influência da percepção na mesma.

Se o texto descritivo tentará elucidar ao máximo a imagem, no plano duplo da estrutura formal e do conteúdo significativo, deverá emergir na superfície textual a diferença entre a palavra e a imagem, imagem que, num certo sentido, a palavra tenta por todos os meios tornar textualmente visível. Sempre se beira a intenção de passar por cima do abismo entre as duas, na sua conjunção tensional, pois nas palavras e, neste caso, na poética das palavras, resplandece a ilusão da figuração exemplar: “É preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano”.

Assim, nestes trabalhos, é inteiramente posta de parte a hipótese da palavra-título como ilustração da imagem. Do mesmo modo, a arbitrariedade entre palavra e imagem é desmentida aqui, pois a relação entre estas articula, simbolicamente, o mundo da nossa experiência. Podemos dizer onírica?

Neste ponto, tocamos a interrogação que perpassa praticamente todo o trabalho de Joana Rego que conheço: a demanda de si própria no seio do trama amorosa das telas. E eis o desafio implícito a que tinha aludido.
A artista projecta a minúcia. Jogadora de xadrez, prevê cada jogada; reduz, no acto, a combinatória de possibilidades à única que vai ser usada nos avanços milimétricos do pincel. A pintora implica-se na tela com a cabeça seguida pela mão. Joga o contrário da escrita automática que, de resto, nunca foi inteiramente automática. Projecta o seu corpo na técnica apurada. Se nós somos surpreendidos pelos seus trabalhos, onde se surpreende a si própria? Onde pode dizer “ça peint”, como Lacan dizia: “ça écrit”?

Podemos imaginá-la na preparação do ritual: a construção das listagens, das texturas, das cores, do grafismo. O quando. O como. Cada mostra, cada exposição de Joana Rego, denota uma dimensão antropológica marcada pela festa do ritual. E, no próprio seio da procura consciente e sistemática, a hierofania irrompe a contra-mão.

É que pôr de parte a hipótese ilustrativa corresponde, também, a verificar que cada letra não escolhe a palavra óbvia, que a criação pictórica não ilustra a letra na palavra, mas acolhe-a, procede com ela a uma troca simbólica doadora de significação. O ditirambo é a sua expressão poético-vulcânica: “é preciso dizer febre em vez de dizer inocência”. A inocência simula ocorrer quando a consciência plena toma posse do processo e o desenrola segundo os procedimentos antecipados. Não fosse o acaso encantá-la, não fosse a “febre” que se apodera dela mais do que ela se apropria da consciência, e não estaríamos todas aqui neste emaranhado de sentires que tentam romper o plástico protector em forma de pequenas bolhas, onde a artista pensa manter-se ilesa. Mas este é também o seu jogo público e privado.

Assim, chego ao atelier de Joana Rego e o horizonte espreita pela porta ajardinada “é preciso dizer rosa em vez de dizer ideia”. Passeamos telas de um lado para outro, para as despojar, também elas) das vestes do plástico protector. Telas de olhar e de conversa que entram e saem de cena.

Depois de ter apreciado uma dezena de trabalhos, onde na segunda linha de “H2O” está escrito “azul ciano claro”, eu li “azul piano claro”. É, claramente, o efeito musical destes trabalhos. Rimos e eu lembrei-me do verso “é preciso dizer azul em vez de dizer pantera”. E embora este “em vez de” tenha todo o sentido, pois as listagens pressupõem que Joana Rego teve de escolher “Abrigo” em vez de todas as outras palavras começadas por a, a partir do momento em que o veludo é vermelho percebemos que uma sinestesia se impõe entre a textura, a sedução e o impacto visual do vermelho.

Em vez de “em vez de”, Joana pinta a ideia na rosa, rigorosamente rosa, tal como a definiria o célebre Dr. P, by Oliver Sacks: um poliedro vermelho, mas de simetria imperfeita”. O universo formal de uma jogadora de xadrez: o hiper-realismo esvoaçou pelo origami mas não fez ninho, ou pousou na tela. O contorno acabado detém a explosão da forma. A implosão é possível. Mas tão rigorosamente como “é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora”. Agora, estou a ouvir “Upon Perfection” de John Surman. O veludo é uma rosa vermelha. O que se repete? Pensaríamos em Deleuze: a repetição deixa escapar a mínima diferença, e é essa que produz a diferença: a que fica invisível por trás do nosso olhar e não deixa sabermos que a repetição nunca repete inteiramente. Variações insensíveis sobre a repetição.

Não estar no âmbito do “em vez de” significa que Joana Rego desocupou cada palavra de todos os sentidos, deixou as palavras provisoriamente tão livres como uma letra pronta a ficar prenhe de sentido e depois coloca-as em relação de participação, em que as coisas não alternam, mas coabitam: Não “é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem”, mulher, “utopia”.

Entre as imagens e as palavras que tentam dizê-las (sem se aperceberem que se trata da ilusão de dizer o indizível), entre as palavras e as imagens que tentam “desenhá-las”, existe muitas vezes a tentação frustre de saltar fossos incomensuráveis.

Joana Rego não se situa neste desajuste, mas no reino da intertopia feliz, de A a Z “entre” as imagens e as palavras que não as dizem. Porque tudo o que pudermos ver e sentir vem do “entre”: do que se passa aí, na circulação incessante, das viagens de vaivém. Joana pega cuidadosamente no alfabeto e diz: este é o meu corpus. Depois gera passagens “entre” os topoi através de sugerências e sugestões, como se nos dissesse: agora des-guardem os vossos sonhos e “ET CETERA”.

 
 

22.07.12

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