Corpo Transfigurado [PT]

«No mundo espiritual existem períodos estéreis, pobres de talento, sem a presença do pão transfigurado»
Kandinsky

 

TOTALIDADE

No corpo evocado pela escrita poética a transfiguração encontra toda a sua dimensão de trabalho redentor. O corpo purifica-se no sentido em que, sendo forma, é sem medida, sem limite e ainda que dele nos seja dado contemplar apenas um fragmento, este nunca é parte de um todo, porque é, por vocação, um universo. Assim e de acordo com o significado atribuído a estes termos por Nietzsche, podemos pensar o corpo poético como Apolo contemplado por Dionisos: o olhar sai de si, desmedido, para na escrita criar a contenção perfeita

Orquestra, flor e corpo:
doravante direi
como do corpo a música se extrai,
como sem corpo a flor não tem perfume,
como de corpo a corpo o som se repercute.

E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.

Através da transfiguração, o corpo carnal natura-se atingindo a plenitude da forma no pormenor do joelho, na perna, no ombro, no poro. Na escrita poética o movimento contrário consiste exactamente em ver a parte pela parte, como objecto, despojando-se o corpo evocado pela escrita da sua infinita materialidade, que é também a sua infinita espiritualidade e que o torna infinitamente desejável. Erwin Straus nota a transformação da comunicação operada pela palpação médica, em que o corpo-objecto é sujeito a uma exploração manual, apresentando e abandonando ao médico o corpo nu. A natureza radical desta transformação é posta em relevo na cirurgia em que o médico não procede à incisão dolorosa mercê de uma raiva cega. Mas Straus não deixa de notar que a modificação da comunicação implica uma modificação no sujeito.

No limite, o olhar que desfigura o corpo em objecto seria também abjecto no sentido proposto por Julia Kristeva, do entre-deux, do ambíguo, do misto, daquilo que «perturba uma identidade, um sistema, uma ordem» e em que a parte esvaziada de toda a vida perde o contorno e é arrastada para o peso do sem sentido.

Deste modo, o corpo transfigurado pela escrita poética é também a transfiguração do olhar que olhando deve descobrir como se encobrisse. Pelo contrário, o olhar cerrado, o olhar míope, possui uma maior apetência para tornar abjecto o objecto olhado. Encontramos esta ideia de pulverização do corpo pelo olhar em Fragmentos de um Discurso Amoroso de Roland Barthes: as partes do corpo são examinadas como se desmontássemos um objecto para ver como é feito por dentro. O olhar que observa é frio, calmo, distante; é o olhar de quem olha sem medo para um insecto. Às vezes basta um movimento no corpo do outro e «o meu desejo deixa de ser perverso, torna-se imaginário, regresso a uma Imagem, a um Todo: amo novamente» .

A imagem do insecto aparece, no mesmo contexto, na Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty , como originada por um olhar inumano. Como se, fosse a que distância fosse, a insustentável proximidade do olhar do outro operasse uma distorção inevitável no corpo olhado, incapacitando-o de se dar a ver como gestalt e desvelar a diferença de cada mínimo detalhe.

O trabalho poético de transfiguração procede a este jogo entre o perto e o longe (dimensão espacial e temporal do corpo), sem que deflagre a impureza microscópica, pois em momento nenhum se perde a imagem, ou seja, a figurabilidade do todo e do pormenor

Como os teus ombros ontem estavam longe,
como os teus seios hoje ficam perto!
O desejo é uma lente que te acerca,
a ternura é um filtro que te esconde…

 

ORIENTAÇÃO

O corpo transfigurado não é apenas corpo, mas também horizonte de quem escreve. A existência do corpo poético não implica, como é óbvio, a existência de qualquer corpo-referência não textual.

A orientação como relação primitiva que sela um autêntico pacto entre eu e o mundo, revela-me imediatamente como corpo. É assim que o corpo é o lugar de apropriação do mundo da distância em mim, experienciando o percurso entre o próximo e o distante através da força (que é intensidade e orientação) do sentimento. Como diz Whitehead os «sentimentos são ‘vectores’, uma vez que sentem o que está acolá e o transformam no que está aqui» .

Qualquer orientação traça pois um vector no espaço que é sentido e valor; por isso o vector é sempre a dimensão temporal do desejo. É assim que o corpo poético descerra todas as características do horizonte: orienta-me, situa-se sempre diante dos meus olhos e nunca atrás, é inatingível, move-se comigo.

Ao contrário do horizonte, o estilo situa-se para trás do corpo, mas numa dimensão temporal. É uma marca que se vai fazendo corpo com o corpo que escreve sem o orientar, porque actua na própria ignorância da sua existência e dos percursos que convulsivamente impõe à mão. Mas quem lê submete-se sabiamente à orientação do estilo.

Enquanto horizonte, o corpo poético é real e inexistente; posso pois dizer que me orienta. Por mais que deseje tocar-te e por mais vezes que te tenha tocado, na minha escrita o teu corpo é um lugar inacessível. Contudo, o impulso com que te convoco na escrita entranha-se às vezes no impulso com que me lanço ao teu encontro. Erwin Straus observa que «quando constato uma coisa, um acontecimento, não me oriento neste acto unicamente para o objecto, mas simultaneamente para mim mesmo» .

Na minha mão e no meu olhar, o encontro contigo é também o encontro comigo.

 

INTIMIDADE

Se quase sempre te trato por tu é porque criámos tal intimidade nos nossos corpos que não posso senão dirigir-me a ti – tal o desejo de te tocar. Às vezes chego mesmo a escrever nós – como se não bastasse tocar-te

Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco

A visão do corpo poético é sempre táctil. Pertence pois à modalidade do contacto ou da intimidade

A palavra e a pele / em uníssono pedem / que lhes pegue

 

TRANSFIGURAÇÃO

Do mesmo modo como o corpo que escreve nunca é só corpo, também o corpo poético é mais do que corpo. A poesia implica por inteiro aquele que escreve e transforma o que pode ser escrito em quem é escrito

Nem todo o corpo é carne: / é também água terra, vento, fogo /…/ pois no teu corpo existe o mundo todo!

Na poesia, a verdade do corpo poético é da ordem do ficcional, na justa medida em que é criação. Pelas razões apontadas (porque um corpo nunca é só corpo e porque qualquer corpo é criação) todo o corpo é, além de certos limites, a ficção da alma que o anima.

Em Do Espiritual na Arte, Kandinsky chama à alma o instrumento das mil cordas. O artista ao tocar na tecla certa obtém, daquela, a vibração justa; produz-se deste modo o contacto eficaz com a alma e a ressonância certa.

A transfiguração do corpo na poesia equivale assim ao trabalho redentor de, através da ressonância produzida pelo contacto eficaz com a alma, criar um corpo desmedido na palavra.

 

Notas

- Na poesia a verdade é da ordem do ficcional, apenas no sentido restrito, isto é, enquanto criação.
- A poesia mostra exemplarmente que cada poro do corpo está repleto de alma numa mesma materialidade.
- O corpo poético é Apolo contemplado (olhado) por Dionisos.
- Quer seja fonte de sofrimento ou riso…. é sempre celebração do corpo (embriaguez dionisíaca)

21.07.12

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