Maria Alzira Seixo no Jornal de Letras sobre O Gado do Senhor [PT]

Que voz poética de tão belo timbre, em Rosa Alice Branco! São versos de um ritmo particular, os deste livro, na medida clássica que abala em disrupções, excessos de sílabas, falhas. E que não desvincula da ideia ou sentimento. Nem da (auto)crítica: «Não me cabe sabotar a vida (pensa ela)/ porque tudo isto existe ao mesmo tempo/ e vem açoitar-me nos teus lábios». A insegurança dita pelo ritmo compensa-se na coesão do conjunto, com razoados de visão do mundo onde avultam animais: cães, vacas, gatos, pássaros, peixes. O humano sobressai então, ele parece ser esse excesso ou falha. As galinhas, por ex., em «Decomposição das Almas», são meios objectuais de pensar a civilização fria e destrutiva, a impassibilidade de Deus. Como a morte: «Os mortos já não pertencem às respostas./ Qualquer adjectivo apodrece como as flores./ Qualquer frase se decompõe sem sujeito./ Sou apenas uma tatuagem na tua campa». Como, em «A lógica pode ser uma madalena», o saber que se não recria, e reduz a qualidade humana: «a persistência imaginária do saber/ pode afectar a memória e a literatura».

No final, «A Morte dos Anjos», a quietude do ritmo pausado e largo perturba-se na insistência na “decomposição”, turvação da ideia a tocar imagens de pureza, golpes à vida, podruras: «Os ombros desmoronam como uma árvore/ deitada abaixo por um temporal, uma árvore que resistiu a tudo:/ sussurrávamos entre os ramos/ e os segredos da infância,/ antes das larvas e da naftalina.» Vida oscilante na alternância de verso longo e curto, como se na sucessão dos poemas o pensamento fosse encolhendo, por incómodo, dor ou impossibilidade. Dando a expressão em protesto, curtas chicotadas de palavras, ou esperança num Homem-Deus: «semeaste tanta convicção nos homens/ que a fé ainda move as montanhas/ onde as minas crucificam como pregos».

 
 

21.07.12

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