Petronio sobre O que falta ao Mundo p ser Quadro [PT]

Este livro é um dos estudos de teoria da arte mais brilhantes que já li. Quiçá um dos melhores trabalhos de filosofia voltados à arte, à representação e à percepção que conheço. Impressiona-me, e digo isso pela milésima vez, a sua inteligência, que é uma coisa brutal. Desde a sua conceituação lapidar de economia, como princípio diferencial do modo representativo do real, calcado numa ação redutiva e monadológica, ou seja, finita, que capta o essencial em detrimento do supérfluo, até as alternâncias que você demonstra entre o visível e o dizível e a recuperação dessa aporia levada a cabo pela valorização dos princípios lingüísticos a partir do século XVIII, tão bem estudadas por Foucault em sua obra clássica, seu trabalho já abre de maneira magnífica e vai ao cerne de questões que, além de serem questões essenciais à arte e ao pensamento, são-no também essenciais para mim. Achei apropriadíssima a maneira como você realça a falta (o fundo) que sobra no quadro e que é, mais que legível nele, um elemento constitutivo de sua própria condição essencial, pois já vemos os elementos que faltam em dinâmica com o que se expressa e essa expressão mesmo é remissiva, indicativa, remete-nos por contraste àquilo que propositalmente elide. A pergunta, como você lembra a partir de Gibson, não é onde estamos. Mas sim onde está o restante do mundo. Catacrese ou metonímia expandida, trata-se de um dos enigmas do olhar, mais especialmente do olhar que se lança à tela.

Logo em seguida você passa às condições da visão e da experiência, entendidas como corpo-a-corpo que significa as imagens retinianas. O horizonte de expectativas seria preenchido pelo sentido objetual que se impregna no modo sinestésico de nosso corpo, de nosso agregado sensível, e é assim que a imagem se oferece e é retida nessa rede. Achei muito oportuno como você traça o paralelo entre o percurso e o discurso: o olhar, não sendo meramente discursivo, não capta a imagem como conceito ou como representação mental, mas sim refaz, em sua operação, o modo experiencial que diz essa mesma imagem no corpo e compõe com ela um platô, um território, para falar com Deleuze. Se não fosse a força motriz do corpo e seus agenciamentos físicos, especialmente o tato, a própria visão, por mais que se queira contemplativa, não reteria o que retém nem veria o que vê. Esse é outro enigma quase insolúvel, mais adiante desenvolvido brilhantemente com referências ao problema de Molyneaux. Tal cisão é que vai possibilitar a busca de uma percepção pura, que radicaria no caráter heterogêneo entre tato e visão, na medida em que os impressionistas, querendo romper essa vinculação, como você mostra admiravelmente, vão propor uma redução fenomenológica rumo à cor pura e à experiência pura da cor, desvinculadas do aspecto motriz que filtra luz e cor, ou seja, tentar desvincular a experiência mundana de sua pura significação plástica. O ápice dessa busca está em Cézanne e nos seus desdobramentos posteriores.

Você critica muito bem a dimensão interpretativa, dir-se-ia hermenêutica, do olhar, mostrando como ela está atrelada a uma visão da arte como ilusão e como conjectura, diferente da evidência da imagem das coisas cotidianas e, temo dizer, reais. Nesse sentido, a partir daqui o livro já passa a desmanchar as concepções positivas de arte, que cindem real e representação, tomando o quadro como elemento discursivo autônomo e desenraizado dos modos de representação ordinários que nos fundam. Se ver não é interpretar, para onde escoaria a essência da visão? Em que terreno original ela se realizaria em sua perfeição? Aqui entra o problema da consciência, da distinção entre a ação ativa e reflexiva, que o livro desenvolve a partir das teorias de Berkeley e Hume. Também a partir daqui você adentra o campo que eu acho dos mais fascinantes. Ele diz respeito à dimensão anterior à simbolização, mas que seria, porém, o seu horizonte de irradiação. Tal questão se liga intimamente ao estudo da causalidade, que você conhece como ninguém. Porque se conceber a totalidade é sempre um exercício de coadunar as séries e as seqüências em um fluxo unitivo de experiência, o cerne de um estudo sobre a percepção deve deitar suas raízes fundas nesse dilema. É isso que o livro faz, mas com a perícia adicional de conseguir tematizar esse problema sem recorrer diretamente às implicações mais conhecidas de duração e discrição, mas indo sim buscar em autores como Whitehead, Thom e Gibson, entre outros, uma série de matizes que as generalizações contidas nos conceitos de devir e fixidez contêm, mas não explicitam.

A implicação do olhar por inteiro tem como desdobramento cuidar dos silêncios significativos e dos vazios plenos que se intercalam às coisas e calam em seu seio, como o mu. Isso só se dá na perspectiva dêitica em que o sujeito está imerso no fluxo da experiência e o olhar e a coisa compõem uma só unidade imanente. Numa clara (e acrescentaria saudável) vinculação ao perspectivismo de Nietzsche, o livro nos diz que a verdade não é atópica, porque não nega que haja lugares, mas tampouco é tópica, porque enfatiza o fato de não haver lugares privilegiados de sua enunciação e de sua construção de sentido. Como você diz brilhantemente:

A arte é a única perspectiva sincera porque se oferece como perspectiva (pág. 24).

Esse princípio de aparente neutralização da arte cria uma dupla verdade, quase que à maneira dos averroístas. Se por um lado não podemos nos fiar em um credo fictício criado por uma ficção, não podemos menosprezar o poder de sua verdade, como contrafacção de um mundo (real) no qual, junto com ela, estamos imersos e sem saídas que não sejam provisórias e contingentes. Por um lado, para que se cumpra a contento a constituição semântica do objeto, a dimensão de espaço e tempo do sujeito é suspensa. Isso fornece ao objeto a sua identidade, fora da duração em que ele é apreendido em seu fluxo. Tal atopia circunstancial da verdade e da arte nos conduz à teoria da evaporação de Gibson, teoria que nos remete a um aspecto essencialmente mundano da percepção. Em outras palavras, que a contrapelo da perspectiva fixa de um olho transcendente que pudesse contemplar o objeto de um ponto absoluto, toda nossa percepção é vivencial e dêitica: consiste no conjunto de preensões que temos de um mesmo objeto que, a despeito do devir irreversível que molda esse conhecimento e esse processo, fornece-nos uma totalidade desse mesmo objeto, pelo simples fato de poder captá-lo alternadamente de inúmeras perspectivas. Essa operação nos daria a sua imanência absoluta, sem, no entanto, furtá-lo à experiência, mas sim, pelo contrário, mergulhando-o e a nós no horizonte experiencial. E aqui, nessa dimensão onde a espacialização e o tempo se cruzam, creio que se inicie a parte mais fascinante do livro. E ela diz respeito ao conceito de pregnância e saliência, e a todas as suas belíssimas implicações.

Você toma algumas idéias a René Thom e depois as entrelaça a importantes conceitos de Whitehead e a Gibson. Mas o que seriam reentrância e saliência? De maneira reduzida, podemos definir a reentrância como agentes promotores da identificação do objeto, em outras palavras, seu princípios de individuação, se fôssemos referir nos termos da metafísica. São operadores de identidade, que fazem com que o objeto se nos ofereça não como um conjunto desconexo de séries nem como uma unidade estática, mas sim em sua unidade conformativa dinâmica. As saliências seriam as fissuras capazes de dar a ver essa identidade fenomenal que se realizam como pregnância. Porém, a identidade não é apenas da ordem dos fenômenos, porque se enraízam em uma teoria da physis. Se um dos dados centrais da pregnância é a busca de orientação, ou seja, eixos provisórios e seletivos que guiam a experiência para que ela se ultime, no nível temporal a pregnância desfaz o conceito cristalizado de um instante puro, e nos remete a uma transitividade entre passado imediato, presente inapreensível e futuro conjectural. Abre-nos àquilo que, como você bem sinaliza, Whitehead define como um instante que não é apenas uma parcela do tempo fracionado, mas sim uma implicação temporal complexa, que contém em si diversos modos do tempo. É o caráter pregnante da experiência que transforma toda a discrição em descrição positiva, válida apenas em termos didáticos, mas sem nenhuma verdade ôntica e nem mesmo física. Da mesma forma, se a sucessão pretende subdividir o espaço, a transitividade (como você bem lembra recorrendo a Hume) é superada pela transmissividade: um instante do tempo se propaga e continua indefinidamente no seguinte, o antecedente vibra e se prolonga no conseqüente, e assim temos um espaço contínuo porque retido em um tempo continuado. Se o tempo se fratura pelos seus modos de apresentação à percepção, é necessário que haja uma unidade da experiência que nos mostre tratar-se de um mesmo objeto, sem retirá-lo de seu devir. Nesse sentido, o fator identitário consistiria sempre na proporção das relações estabelecidas entre as séries sucedidas e, portanto, suprimidas enquanto série sob a ação da pregnância e do princípio de conformação temporal desenvolvido por Whitehead e aplicado à maestria por você.

No fundo, estamos aqui às voltas com um dos problemas mais espinhosos de toda a filosofia: os conceitos de identidade e diferença. E se Nietzsche, em um apontamento, nos diz que a unidade das coisas só existe como conceito mental confiscado à existência, e que foi sobre esse ato de vingança contra a mobilidade flutuante do mundo que o Ocidente se erigiu e criou aquilo que ele chama equivocadamente de ciência, estava nos alertando para o fato de que a exteriorização da identidade pode matar a experiência e, com ela, toda a vida. Porém, sem qualquer padrão de identidade não poderíamos rigorosamente afirmar que o sol se levantará amanhã, no que discordo dessa premissa de Hume. O que é brilhante no seu estudo é que, partindo já de antemão dessas premissas e demonstrando conhecê-las a fundo, você não interpela o leitor sobre as indagações de base, mas lança-o, sim, à maneira do filósofo alemão, à aventura de um mais além. Não se trata de retomar Parmênides ou Zenão de Eléia, nem de diluir a durée em uma visada empobrecida da concepção de Bergson. Trata-se sim de analisar como se encadeia a identidade na percepção mesmo quando essa opera por discriminação de quadros e separa o mundo em partes e instantes. A identidade frisa as relações, mais do que decompõe suas cenas. E é apenas nesse diapasão que podem convergir, em um excelente modelo triangular descrito por você, a univocidade do sentido (passagem do material significante ao significado), a equivocidade gradativa que se estabelece entre os graus de significação e a completa ausência de significado. Todas às expensas do princípio unificador que redime o instante cristalizado ao mergulhá-lo no tempo e livra este da pura imanência desarticulada.

Essa operação faz com que a identidade não seja desligada da seqüência na qual o objeto constitui o termo atual. O que temos é uma maravilhosa reconquista da continuidade, remodelada a partir do percurso da experiência que esculpe o conceito e legitima a imagem vista, na medida em que lhe fornece uma legibilidade táctil e um vetor, que sempre corresponde a uma afecção. Assim a livra da dimensão representacional em que naufragam ainda hoje todas as filosofias que não conseguiram se cumprir enquanto tal. Retomando Gibson, você vai propor a percepção como ato contínuo. Como foresight (previsão) a percepção elege previamente seu rumo, sua atuação. Como affordance (recurso) dispõe de meios para concretizar essa sua perfecção. O que é interessante é que a pregnância, como princípio e base física, funciona como um esquema causal que organiza os princípios de toda a representação. É como se ela fosse a instância projetiva e a base onde se objetiva a representação. Para o próprio René Thom é um fluido que se propaga nas fissuras do real e é acolhido nas suas saliências. É nessa série de transferências que se realiza a conveniência entre ambas as instâncias. A propagação da pregnância conduz o eu ao mundo, o sujeito ao objeto, a partir do caráter diretivo que a sua orientação afetiva agencia. Mas o movimento inverso também se dá: a carga semântica do objeto também se fornece ao sujeito do enunciado de maneira a limitar a sua legibilidade e confirmá-la. Toda a pregnância é um atrativo, um vetor direcionado pela base afetiva da percepção, entendida em seu impulso à orientação.

É baseado nesse movimento que a unidade do mundo assimila a sua aparente seriação. E é de acordo com esse processo que os objetos do mundo, como você demonstra, podem ser vistos em sua totalidade. Por isso, o mundo está além do quadro, porque lhe falta o teor específico da representação para se conceber enquanto tal, mas também ao quadro falta mundanidade. Falta-lhe a dimensão estrita que caracteriza o aqui e agora afetivo dêitico que nos faz mais reais que a pintura e menos fictícios que a realidade. Interessei-me muito pelas distinções que você traça, a partir de Hume, entre crença e paixão, ficção e imaginação. A partir delas você equaciona a experiência afetiva e retoma o conceito de inferência, por ele desenvolvido, para retificá-lo. Porque se a inferência de Hume, como você bem demonstra, cinde passado, presente e futuro em entidades discretas, sob a força de conceber a percepção como operação transitiva, tal cisão será criticada e resolvida por Whitehead, ao definir o instante não como um recorte do tempo, mas sim como aquela dimensão em que todo o tempo está inscrito. A imagem é bela, e de amplas conseqüências teóricas. Guardadas as diferenças enormes, tanto históricas quanto conceituais, é como se Whitehead seguisse e propusesse, em nova chave, as concepções de Santo Agostinho, nos livros XI e XII das Confissões, nos quais o filósofo define o tempo, em termos gerais, como um passado que é extinto, um presente inapreensível e um futuro que nos é vedado, insistindo no fato de que vivemos, de certa maneira, um presente absoluto, para o qual estas duas dimensões temporais escoariam. Mas é justamente por essa operação conceitual que você consegue propor uma saída para a discrição, em benefício do fluxo. E apontar, admiravelmente, como:

A nossa crença só é bem fundada se reencontrarmos o nexo causal na percepção e este só é possível a partir da crítica do conceito de tempo como mera sucessão (pág. 60).

A crença, entendida no sentido de uma atenção aos dados do mundo que nos são fornecidos, só pode se cumprir em seu percurso perceptivo se suspensas as categorias sucessivas do tempo como um conjunto de instantes em série. Isso só será possível se imergirmos em uma relação com o mundo onde o eu e o mundo estejam ambos unidos, mais que ontologicamente, física e perceptivelmente, pelas pregnâncias, que fornecem as bases para a nossa orientação. Ela é o componente prévio de toda a experiência e de toda a percepção. Sendo vetorial, ela também é seletiva: mesmo o animal age a partir de tendências que orientam sua ação de acordo com graus de perigo e êxito. Portanto, por modos que selecionam os objetos a partir de dados imanentes à percepção que o ente, imerso no mundo e prenhe de pregnâncias que se lhes oferecem, rebatidas e conformadas em saliências sensíveis. Esse processo reveste os sentidos de um valor sinestésico, motriz, vestibular que ultrapassa a mera imagem retiniana, bem como a mera representação mental e seus componentes lingüísticos e sígnicos. Daqui entrarmos no importante conceito de conformação, desenvolvido por Whitehead. É ele que une termos antecedentes e conseqüentes no tempo e, desse modo, unifica a percepção e o espaço sob o fluxo de sua ação.

Em meio a todos esses desenvolvimentos de conceitos brilhantes, um dos maiores méritos da sua análise é o fato dela não vedar alternativamente os dois principais modos de percepção, o da eficácia causal e o da apresentação sensível, como você demonstra admiravelmente. Fá-lo porque a ação conjunta de ambos é que nos faz passar do significante ao significado, ou seja, do nível latente ao simbólico. Essa passagem nos desvenda mais uma faceta excelente do seu trabalho: a minimização do dado simbólico no processo perceptivo e o mergulho vertical e conseqüente nas suas origens e em sua physis. Como fenômeno vetorial, o tempo tende a se tornar espaço. Da mesma maneira, a expansão conformativa de que você fala, resolve a aporia de um tempo cumulativo, tal como foi descrito por Hume, e, ao mesmo tempo, promovem a passagem das impressões discretas à permanência do objeto, solucionando também, por seu turno, a aporia que ocupou boa parte das reflexões do grande filósofo.

A resposta para o intrigante e ao mesmo tempo jocoso título da obra se nos mostra cada vez mais fascinante e cada vez mais luminosa. Porque a passagem do mundo ao quadro não se dá por uma redução. Ao contrário, se opera sim como um abandono às coisas e à dimensão afetiva da experiência, que resgata a representação em seu estado nascente, em seu devir físico, em sua floração na physis. A percepção, gravitando em torno de seus sucessivos percursos, aqueles que deixam inscrições em quem percebe e não meras imagens mentais, recupera um horizonte dos mais ricos, aquele no qual o eu e o mundo são um único acorde no tecido infinito das pregnâncias. A opacidade que os distingue um do outro é apenas o rebatimento formal das saliências que elas produzem. Nesse mundo uno, a conformação do tempo se dá, não como sucessão de instantes acumulados, mas como fluxo que nos remete à totalidade do tempo implicado em cada presente. A reversibilidade possível entre mundo e quadro não é total, posto que ainda vivamos a aporia descrita por Foucault, entre o dizível e o visível e as heranças de um pensamento que se polariza incansavelmente entre o empírico e o transcendental. Como você lembra muito bem, por mais que se atenue esse hiato, o quadro se destina à contemplação, mas não poderíamos viver nele. Por outro lado, lembremos que o mesmo filósofo entrevê uma nova luz, que radica em um mergulho na experiência originária do tempo. O seu trabalho, Ra, perpetra um golpe conseqüente em toda a polarização e nos dá um dos melhores atestados desse tempo original. Ao remeter-nos à arte e à percepção, apenas escamoteia, de maneira inteligente, o cerne de seu propósito, que no fundo é o de propor um novo sentido e uma nova ação para vida.

Rodrigo Petronio

21.07.12

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