Entrevista ao Diário de Notícias por Ana Gastão [PT]

Acaba de reunir a sua obra poética. O volume inclui um inédito, «Soletrar o Dia». Este conjunto de poemas é percorrido por uma casa: «Antes não era eu. Era a casa em construção.» Que casa é esta, a de um corpo de imagens, à maneira de Bachelard? Uma resposta à memória?

Sim, sim, a casa é em Soletrar o Dia exactamente um percurso. Mas aqui o percorrer é também um discorrer no sentido de Michel Serres: um lugar de deambulação. A construção da casa é o lento crescimento do sujeito do poema, para fora e para dentro, esbracejando até ao encontro com aquilo em que se tornou. Mas a poética do espaço nunca passa pela memória. Todos os lugares são actuais, quero dizer, mesmo o antes habita no coração do agora e do amanhã. Não há arquivos, só sentires.

 

Enquanto se vai revelando na sua escrita uma espécie de lado animado de todas as coisas, ligado à paisagem, visível, portanto, também se pressente o desenho de uma ausência…

mas uma ausência que nem sempre é perda. Muitas vezes é, pelo contrário, aquilo a que os japoneses chamam “mu”, esse vazio que permite a respiração. É uma pausa produtiva, o lugar inverso, as pessoas que ficam em nós, mais do que na sua presença efectiva: na sua presença afectiva para lá do tempo.

Talvez por isso o tempo surja enquanto medida da existência e suas variações. Gide escreve em «Nourritures Terrestres»: «Falar-te-ei dos instantes». Esta é também a sua concepção de temporalidade? Vivemos nos intervalos e não continuidade?

Eu acho que nem numa coisa nem noutra. Não consigo conceber o tempo como discreto, mas como um fluxo e só assim o nosso agir e o nosso sentir ganham sentido. Mas esse fluxo que, obviamente, requer uma continuidade é como um cardiograma, cheio de picos, ou de variações, para utilizar a sua expressão. Cada instante que isolamos desse fluxo está fortemente embebido por uma envolvência temporal, ainda que o possamos viver como «instante puro». Essa pureza reside no grau de emoção que experimentamos que faz com que alguns momentos pareçam absolutamente únicos, para o bem ou para o mal.
Para mim toda a magia reside no esquecimento que nos permite ver e viver cada coisa pela primeira vez sobre um tapete rolante.

 

E o amor, no seu entendimento, nesse percurso temporal, é o da exaltação do mínimo? O dos «nadas quotidianos» ou quantidade de lacunas a que se refere Valéry, como se pode deduzir, por exemplo, de «O Interior da Água» (Animais da Terra»)?

Aqui tocou mesmo no alvo. Nunca tive aptência para as coisas máximas. Sonha-se demasiado com elas e, quando chegam, pomos em dúvida se são um verdadeiro ou um falso Aleph, como no conto do Borges. Soletrar o dia é sobretudo saborear ou degustar o dia sem expectativas a preencher. Não é tanto exaltar o mínimo, mas sentir o mínimo como exaltante, saber que cada fragmento é uma totalidade aberta. Animais da Terra tenta desenvolver em poema a epígrafe de G. Bataille que nos diz que, diferentemente do ser humano, o animal não se distingue do mundo. O homem habita a distância: tem de negar o mundo, separar-se dele para se constituir como sujeito. A vida, que só entendo pela via do amor, é para mim viver ao rés dos nadas e deixar-me cativar.

 

«Do esquecimento ao começar», assim é o amor? Freud, primeiro dos modernos, entendia-o como cura. Considera-o uma forma de pacificação, uma espécie de dinâmica desconcertante? Falaria dele como? Liga-o à escrita?

Vou ter de abreviar muito porque esta questão é inesgotável em termos de resposta. Eu vivo dentro do amor e já disse num poema que só escrevia poemas de amor. Só que este amor toma mil e um aspectos, já que se trata de um amor incondicional por tudo quanto existe. Acho que o que é mais desconcertante é dizer às pessoas que tenho uma escrita feliz. O que amo é escrever, independentemente do que sair. Mas não escrevo só quando escrevo. Estou sempre a escrever-me e a rescrever-me, já que, com Leibniz, acredito que tudo conspira, o que me torna naturalmente, alegremente e infinitamente responsável.

 

Uma determinada vertente do seu trabalho corresponde a uma forma de investigação (e interrogação) em torno das possibilidades da linguagem poética. Nessa medida, escreve porquê e para quê?

Gostava tanto de lhe saber responder.
É certo que a língua me fascina. É incrível como tudo está lá e, no entanto, é possível desarrumá-la. Como ela fala, mas possibilita a introdução de silêncios, como permite dizer o que se não diz, como dá a ver, como desencadeia emoções. Mas dito assim parece que se trata de um jogo ocioso. A linguagem poética pode até prescindir de um “porquê” ou “para quê”, mas eles acabam por aparecer pela porta dianteira, como dizia Lacan. No poema «Soletrar o Dia» tento fazer um balanço honesto dessa e de outras questões e o poema termina «Soletro os dias em cada coisa que me olha / quando me sinto a vê-la. É tudo. / E não há desculpas para o que faço.» Mas todo o poema tenta responder a essas questões que às vezes ocultamos de nós próprios. A escrita faz inteiramente parte daquilo que sou. Como está na epígrafe de Leibniz, em Monadologia Breve, escrevo porque «há no abismo das coisas partes adormecidas que é preciso despertar». Mas sem saber se despertei ou despertarei o que quer que seja.

 

De alguma forma, o mundo e os seres surgem como um texto para decifrar, na acepção de Ricoeur?

Sim, sim, o sentido constitui-nos; a dificuldade está em nos livrarmos dele. Mas devemos ter a humildade de saber que estamos perante uma semiose ilimitada e deixarmo-nos encantar pelo significante flutuante de que fala Lévi-Straus. Aqui cabe bem o «para quê». Decifrar para chegarmos cada vez mais perto, para tocar e nos deixarmos tocar. Não mais. Caso contrário não teremos da vida uma experiência clínica?

 

Até que ponto se auto-ficciona?

Até onde seja possível, sendo que o contrário é igualmente verdadeiro. Talvez porque não se trate de auto-ficcionar-me, já que não existe, propriamente, um eu que escreve ou que é escrito. Quando mais me dispo no poema, mais se multiplicam as perspectivas, mais difícil é detectar o ponto de fuga. O traço mais forte é o estilo que age como corpo da escrita, um corpo que vai sofrendo variações, mas cuja identidade não deixa de ser reconhecível.

 

«Monadologia Breve» fala da penumbra como o movimento do poeta atravessando a obra. A sombra pode ser excesso de criação?

Pode. A sombra doa à visibilidade o que a ofuscação retira, e prolonga os seres em mil e um aspectos cheios de cambiantes. Mas a penumbra é o movimento em que o poeta se apaga para que o poema surja.

 

A sua formação filosófica – e correspondente actividade nesse domínio – é, de alguma forma, inseparável da poesia. A percepção (no sentido de que, para que existam, as ideias têm necessidade de ser percebidas) interessa-a, como forma de construção/compreensão do mundo, quer num universo, quer no outro?

São inseparáveis, sim, até no sentido em que quando tenho um problema filosófico tento questioná-lo, pelo menos, por via do ensaio e do poema. A percepção está, para mim, na raíz de tudo. As coisas só passam a existir (num sentido não imaterialista) na medida em que são percepcionadas, em que as tornamos visíveis. E a percepção é já geradora de sentido e guia para a acção. Deveremos é estar à escuta das suas mensagens, por vezes tão silenciosas quanto subtis. Por outro lado, é sintomático que as pessoas digam que os meus poemas são cinematográficos e não que são fotográficos. Escrevo com um olho móvel numa cabeça móvel de um corpo móvel. E deixo a mão caminhar.

 

Já disse que na poesia recente o mais consistente passa pelo despojamento e pelo elogio do quotidiano. Olhar o mundo sem artificialismo grandiloquente, à maneira de Larkin, pode ser interessante. Mas não há o risco de se cair no facilitismo ao nível da linguagem?

Claro que há. Mas a poesia, como tudo, não é o lugar de todos os riscos? E a grandiloquência não é igualmente pobre? Pegar na língua pelos cornos exige mais perícia, quero dizer, requer a transfiguração do quotidiano para que ele se constitua em poema. O elogio do quotidiano em poesia, ou em pintura, não prescinde de uma multiplicidade de registos arquitectónicos em indeléveis camadas. Veja Vermeer, por exemplo.

 

Quais são os vectores que presidem aos Encontros Internacionais de Poesia de Aveiro, que tem vindo a organizar? Haverá alguma ideia de comunidade que se vai formando entre poetas?

Os dois grandes vectores, desde que Egito Gonçalves e eu pensámos este Encontro, e que continuam a norteá-lo, são o trazer poetas de países em que a poesia está menos divulgada entre nós e fazer chegar a poesia aos lugares em que as pessoas se encontram, como um bar, uma praça, etc. Assim, para além das salas, a que as pessoas se deslocam, o poema tenta descer às ruas. Este ano, a poesia no bar Olaria teve uma enorme audiência, entusiasta e atenta.
Um outro vector é dar a ver a região (inclusivamente do ponto de vista gastronómico), dar a sentir o espírito do lugar, e fazer com que as todos sejamos felizes ali, habitemos em poesia.

 

 

21.07.12

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