Alguns poemas [PT]

PASSOS SEM MEMÓRIA

Olho pela janela e não vejo o mar. As gaivotas
andam por aí e a relva vai secando no varal. Manhã cedo,
o mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume
e o jornal. A saliva com que te hei-de dizer bom dia.
As palavras são as primeiras a chegar. O que fica delas
amacia o papel. Pão quente com o sono de ontem
e os sonhos de hoje. Prepara-se o dia, os passos
de ir e vir. Estou cada vez mais perto. Olhas-me
como se soubesses o que hei-de saber mais logo.
Nesta cidade nunca é meio-dia. Há sempre uma doçura
de outras horas. E recordações avulsas. Deixa-as sair
de dentro do vestido, deixa soltar as ondas do mar.
A janela está vazia. O meu filho caminha na praia
e tu soletras as gaivotas. Caminha à minha frente
sem deixar pegadas. Perco-me como todas as mães,
todos os amantes. Invento passos e palavras
para adormecer. A esta hora a minha avó enrolava o rosário
nas mãos. Eu estava dentro das contas, dentro do sono
que rondava a prece. Durante muito tempo estive fora.
Agora caminhamos juntos. Sem memória.

(in Soletrar o Dia – obra poética)

 

 

OBRA-PRIMA

Quando a tua mão acaricia a minha perna
os sensores da pele desencadeiam reacções sentimentais
e às vezes chego a ter uma reacção motora. O ângulo
da perna, a inclinação do pé – maravilhas-te com a paisagem
ocasional: depois da curva da estrada estabilizas o olhar
na curva do joelho. Os olhos impacientam-se em sacudidelas
invisíveis mas o espelho reflecte apenas imobilidade.
A sandália: o teu olhar vai do joelho à nudez do pé. Este pé
que calcorreia as ruas é também objecto de desejo: o pé
que calca o travão a fundo. Sei que vais beijar-me – talvez
nem tu saibas que a postura do teu corpo tem o formato
de beijo. A carícia necessita de um controlo minucioso,
da pressão exacta para que não me esmagues a rótula.
O contacto é doce na pele que te ofereço, a carícia
é a obra-prima da engenharia mecânica. Olho a baía
onde se reflectem os néons da noite e deixo o corpo
trabalhar à vontade. Depois adormeço com a tua mão
na minha perna e a vaga consciência de que o paraíso
se estende da ponta dos pés até ao cimo da cabeça.

(in Soletrar o Dia – obra poética)

 

 

POR UM DIA DE INVERNO

O homem do talho morreu. Deixou mulher,
dois filhos e carne fresca estendida como roupa
no varal. Lembro-me do orgulho com que passava a mão
pelo cachaço. Lembro-me da peixeira
que nos acordava de manhã «peixe fresco
tão vivinho» e como era caro o estertor do linguado.
Mesmo as alfaces são frescas depois de mortas,
o molho de nabiças, até de uma cenoura esperamos
que seja fresca ali no prato com o linguado rigorosamente
apartado das espinhas. Tão fresco! O homem do talho
vai a enterrar depois do almoço. Agora jaz na capela mortuária
de rosto descoberto para a família e os curiosos. O homem
do talho morreu cansado, mas agora está fresco:
foi abatido ontem, será embalado às quatro da tarde.

(in Da Alma e dos Espíritos animais)

 

 

TELHAS NO CÉU

Nunca chegas. Estás onde estou.
A estação muda neste dia, dizem as mãos
afagando as roupas. No verão os hóspedes
enchiam a casa. Mudava-me para o quarto
com clarabóia e telhas no céu e sonhava
com tudo o que havia de ser e nunca fui.
Melhor assim. Antes não era eu
e os meus sonhos não eram de ninguém.
Por baixo de mim os teus passos até altas horas.
As tuas mãos. Nunca estive só, nunca estarei.
Quando te foste ainda não sabia que voltavas.
Olhas-me no cimo do escadote. Ele chega
e beija-me no último degrau. A dois passos da cama.
Subitamente o verão. A luz ofegante do verão.

(in Soletrar o Dia – obra poética)

 

 

GRAVITAÇÃO UNIVERSAL

De novo o mar que espero
sentada à janela que dá para as rosas.
Que dá para todas as ruas que passei
com os teus passos. Para a estrada
onde virámos a cabeça para não ver
o homem esvaído no chão.
Depois comemos na casa de um amigo,
bebemos e falámos como se a vida fosse eterna.
À volta a estrada estava limpa, sem sinais
de sangue. As luzes sobre o mar nas duas margens
e a tua mão na minha perna. Lá no céu
um homem esventrado procura as suas asas.
Nada sei de anjos. Eu que espero o mar todos os dias
acredito na rotação da terra e na lei da gravidade.
Mas quando chegas o corpo não tem peso
e as palavras voam em redor de nós
alagadas em suor. E vem o mar.

(in Soletrar o Dia – obra poética)

 

 

ORAÇÃO A S. GREGÓRIO

…onde não haja eira nem jeira
nem folha de figueira
nem pedra de sal
nem coisa que faça mal
só um raminho de vento
para nos salvar

Dormíamos por cima das galinhas
à beira das pombas,
das pilhas de lenha que chegavam à janela
com os cheiros de maio.
Às vezes um trovão
fazia o santo levantar da cama,
tomar o café à pressa,
meter-se ao caminho para afastar a tempestade
do medo dos coelhos e da avó.
Lembro-me da trança balouçando
à luz da lamparina,
da prece espalhada pelo quarto
e eu encolhida no calor da cama
para não ouvir ladrar os cães da noite
sem saber que um santo os levava para lá do monte
onde nunca houve eira nem jeira,
nem folha de figueira,
nem o tempo que nos conta os dias.
Só um ramo de vento que floresce à janela
por entre a cinza da madeira
e o amor da avó.

(in Animal Volátil)

 

 

A TUA PELE DESCALÇA

Veio uma onda. A varrer o meu sono.
Caminhava nele como caminho na areia.
Nada me une ou divide. Nada me retém.
Sentas-te onde me sento no teu colo
e peço sempre a mesma história. A tua voz
cria as memórias que hei-de ter. Por agora
caminho ao longo das gaivotas e grito como elas
quando a maré baixa. Às vezes apoio-me num rochedo
para dizer “casa” e logo desmorono. Sigo descalça
como tu para dizer “seguimos”. Mas são apenas sons
sob o sol de maio. Murmúrios do que não serei.
Sempre tive problemas com o verbo ser. Faço
e desfaço as malas, entro e saio das gavetas.
Pausa na camisa que vestiste da última vez.
Uma vontade de a amarrotar, desapertar os botões
e sentir lá dentro a tua pele cá fora.
Tudo isto é tão verdade como podem ser os botões
de uma camisa escrita. Confesso que não pensei na cor,
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser a de quadrados.
Em qualquer delas a tua pele entra na minha.

(in Soletrar o Dia – obra poética)

 

 

AS RAÍZES DO DIA

Foi de súbito que a noite veio. Era já tarde
quando me perguntaste se não tinha frio,
se não tinha olhos, se as minhas pernas
não corriam atrás do vento. Sentia-o girar
à minha volta e eu de fora. O mundo
à volta do vento e eu sem eixo. Só as palavras
regressam em cada rotação. Vejo como estão sós
longe da boca, como têm frio. As palavras são um animal
a ganir à porta da casa que o escorraçou. E tu,
em que almofada pousas o coração? Se seguirmos
o leito do rio podemos deitar-nos na terra seca
por onde corríamos quando havia luz.
E era eu que rodava no teu eixo na ignorância
de cada rotação. Deixa a tua carícia na minha perna
para que eu veja enquanto o sono me dorme
e nascem duas noites para os nossos olhos.
Quem nos dará o pão e o dia? Com esta pergunta
adormeci. Uma árvore veio pousar em cima
da montanha. E nunca precisou de raízes.

(in Soletrar o Dia – obra poética)

 

 

INVENÇÃO DO OLHAR

Não digas que eu não estava à janela,
que não foi para ti o que não viste.
Há tanta coisa que não sabes, não digas.
Um dia ver-me-ás à janela de ontem
com a roupa que hei-de vestir amanhã.
Até lá pensa que me sonhaste. Nem eu mesma sei
o que fiz nesse dia. Mas a janela guarda os meus dedos
como tu me guardas. O tempo é uma invenção recente.
Era uma vez essa mulher que viste. Retira o vidro,
a moldura, e não te esqueças de abrir o horizonte.

(in Soletrar o Dia – obra poética)

 

 

AS MÃES

ao Joni

A mãe chama para o almoço
e corres com os calções rotos,
os bolsos cheios,
o riso a arreliar as horas,
as mãos lavadas à pressa
e a tua boca é meiga ao chegar à mesa.

Se tardas, a mãe guarda o teu prato
junto ao coração
e sorri-nos como se fosses chegar.
O almoço esfria. Os nossos olhos colados
à porta, às tropelias que hás-de fazer,
aos joelhos rebentados,
aos bolsos que se esvaziam em cinzas.
Mas não há mar que baste para afogar
o almoço à deriva no teu prato.

A voz da mãe não cessa de chamar por ti.
Quanto mais cala, mais a ouvimos
a uivar em silêncio pela sua cria.
E mesmo assim sorri-nos,
e nós a ela, tão desajeitados.

As mães sempre chamam pelos filhos.
Quando sabem que a hora do almoço findou
continuam a vê-los entrar pela porta
com sorriso de criança endiabrada.
Depois que todos se levantam da mesa
elas estilhaçam o prato contra o coração
e continuam mães
com os olhos cansados e as solas gastas
de esperar ao frio para todo o sempre.

(in O Mundo não acaba no frio dos teus ossos)

 

 

SUSPEITOS DO COSTUME

Vieram ter comigo esses dias. Perdidos
no fundo de um saco, o acaso a transplantar
o coração. Quem podia adivinhar que o teu corpo
era a alavanca do meu? A física do vício está oculta
pelas entranhas (jura ela). Não basta tirares
a roupa para abrires os poros da pele. Por isso
muda o coração. Não é a ti que o digo. Há mais gente
apinhada nos passeios à espera da morte. Os olhos
são os primeiros a morrer, os últimos a chegarem
ao céu. E lá que até a inércia é cheia de pureza,
podes flutuar na eternidade. Não me encontrarás (ela o diz)
a dois palmos da terra. Nasceram-me pés
e mãos para escrever o que desfiz. Mas as perguntas
ficam a salvo de nós. Não temas os teus lábios.
São apenas a porta, a fresta por onde a morte te trai.
Mas eu quero-te vivo ainda uma noite, uma noite de tréguas
assinadas ao rubro. E não subestimes os teus lábios
só porque não os sangrei até ao fim. Por onde entraria amanhã
na tua boca? És o meu melhor vinho e nunca desperdiço
um ritual. O teu rosto tem uma dor escancarada nos sulcos
da infância. Lima as unhas, amor, pelo fundo
ventre que te abriu os olhos. Lima as tuas mortes
sucessivas até achares só uma que te sirva.
Sabemos do que estamos a falar. Que ninguém suspeite
da doçura deste amor: a única violência indispensável.
É assim: embalo os teus pavores com as mãos na garganta.
E se aperto, aperto os teus gemidos no punhado branco
do lençol. Tanta luta para uma glória (sentem eles)
a enroscar-se nos despojos da alegria.
Perguntas-me se tenho sede. Os teus lábios
sem esperar resposta. A vida arranha os calcanhares.
Descalça-te, que as feridas só abrem para o medo.

(in O Mundo não acaba no frio dos teus ossos)

 

 

SÓ OS GATOS

Hoje os gatos não comeram.
Foram-se juntando aos poucos no telhado
e nem a chuva os fez abrir a língua.
Nem a água desaguou a voz, ou os gatos miaram.
Aquelas passadas que só os gatos sabem
afastaram-nos das palavras incisas em mármore
ou no granito deitado. Do plástico florido.
Das flores que a ausência perpetua.
Hoje as campas estão silenciosas
e os gatos com as garras espalmadas contra as telhas,
com o olhar que só os gatos olham,
não sabem ainda se perderam a fé na vida
ou mais na morte. Sentem um nó
inominado na garganta como todos nós.
No cimo do telhado dizem não ao céu.
Querem afirmá-lo de perto.

(in Gado do Senhor)

 

 

ANIMAIS DA TERRA

O caracol avança tenazmente
para que o tempo erga o seu império com o visco
que alastra pelo solo. E se nasce uma árvore,
é pela resina que a morte se infiltra
na candura dos animais, na sua sombra.
Eles ignoram que as antenas do caracol
prevêem cada naufrágio antes do nevoeiro
sobrevoar as ilhas e morrem com os olhos,
o corpo ainda a contorcer-se nos ramos.
Os animais vêem para dentro.
Vivem até ao último coágulo e depois a seiva
da árvore esbanja-se sob o manto da terra
a animar as partículas ínfimas em que se tornaram.
As almas descem. É por isso que o mundo não acaba.

(in Gado do Senhor)

 

 

MORE IS LESS

Cada dia temos mais mortos.
Ou são eles que nos têm,
que nos prendem ao chão pelos cabelos.
Se temos frio, estremecem
e saciam quando bebemos.
Somos a sombra em redor do copo
e quase as mãos que rodam nas palavras.
Apanham-nos pela nuca. É assim que respiram
aos ouvidos. E nós levados pelo canto da sereia
nem suspeitamos que vamos servindo a morte.
Infestados pelo medo: uma carta, um murmúrio,
dias de festa, esses lugares de tristeza onde se ri por dantes.
E se tudo isto for o resumo da nossa história?
Falta ainda o tempo em que morrer é o menor dos males.
Quando se poupa em tudo o que se faz. Algum esbanjamento
é permitido como se fosse o último cigarro. A morte
é a soma dos juros dos bens que nos negaram.

(in Gado do Senhor)

 

 

A MORTE DOS ANJOS

para o Joni

Foram as larvas (pensa ela).
Enchiam o carro
e guiavas entre as asas
com os olhos cheios de borboletas.
Depois ficámos com o cheiro a naftalina.
Foi um presságio (diz-me várias vezes).
Agora não há asas que se agitem
diante dos teus olhos.
A morte dos anjos faz parte deste processo
contra a inocência.
A naftalina também.
O mesmo peso quando se evaporam
desce sobre os ombros
carregados de tangerinas.
Estendemos um gomo a um pobre
e ele ri-se na nossa cara
como se a eternidade fosse essa gargalhada
que fede a naftalina.
Os ombros desmoronam como uma árvore
deitada abaixo por um temporal.
uma árvore que resistiu a tudo:
sussurrávamos entre os ramos
e os segredos de infância,
antes das larvas e da naftalina.
Subitamente um casulo, uma outra data
aposta ao nascimento por um traço de união.
Que se foda. Não dou um cêntimo contra a inocência.
Se és deus, ressuscita os anjos. Eu cá em baixo
não espero peva a não ser um pouco de pudor da tua parte.
Mas continuas a exibir o sofrimento das larvas,
da tua mãe santíssima, dos teus pregos a escorrerem
sangue, um sangue que é puro desperdício.
Se ao menos fosses dador universal.
Eu e ela só tínhamos borboletas nos olhos
e pensávamos que os anjos nos guiavam:
mas eram só diplomas de médicos espetados
contra o vidro, só batas sujas de presságios.

(in Gado do Senhor)

 

 

LEÃOZINHO

Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar como um imã

O futuro que combinámos
escreve-se para trás.

A vida sofre de iliteracia
e nós sofremos das palavras
que havias de dizer e já não são.
Raio da manhã

atrás do sol

(in Concerto ao vivo)

 

 

SEM LHE DIZERES

Há uma menina antiga nos teus olhos.
Todas as manhãs espera que acordes
para ver tudo o que vês. Não sei
como aguenta essa roda-viva em que
a trazes. Também nós te vemos deste lado
onde agora caminhamos ou coisa parecida
e há muito que deixámos de voar. Só quando
entramos na infância ao mesmo tempo
é que dizemos: – deve haver um cruzamento
para lá. Mas é tão raro achá-lo e nunca dizes
se também te perdes de nós porque entrar na infância
é só dizer o que foi dito de outro modo.
O quintal guarda-nos as sementes.
Estão depositadas num cofre que perdeu a chave.
Através das paredes ouço um riso de menina
e uma casa à cintura. Quando anoitece ela livra-te
das sombras enquanto puder crescer.
Não a deixes assim à espera

sem lhe dizeres que não vais acordar

(in Concerto ao vivo)

 

 

ÁS ESCONDIDAS DO CORAÇÃO

As mães deixam de saber quem são
porque escolhem ser-nos.

É uma afirmação peremptória
antes de começarmos a crescer
para onde nos perdem o rasto
e já não se encontram.

Algumas abençoam-nos por isso.
As outras põem filhos
e depois comem-nos às escondidas
do coração

(in Concerto ao vivo)

 

 

21.07.12

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